“Como você está?” Quantas vezes essa pergunta foi respondida com um automático “tudo bem”, mesmo quando algo dentro de você gritava o contrário?

Vivemos tempos em que o cansaço virou estilo de vida.
E o mais cruel: somos ensinados a sorrir por cima dele.

A cultura da exaustão é mais do que o acúmulo de tarefas, metas ou reuniões. Ela é um estado de alma esgotada. E uma das suas engrenagens mais silenciosas — e perversas — é a positividade tóxica.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, chama atenção para o modo como o mundo contemporâneo nos empurra à autoexploração: somos, ao mesmo tempo, senhores e servos de nós mesmos. Precisamos performar, render, entregar. E fazer isso tudo com leveza, gratidão e um sorriso no rosto. Mesmo quando tudo em nós pede pausa. Até o sofrimento precisa ser bonito.

O perigo esta na positividade tóxica e obrigatória,  aquela que nos obriga a encontrar o lado bom em tudo, mesmo quando o que a gente precisa é apenas chorar, descansar ou admitir que não está tudo bem.

Ela nos impede de acolher as dores legítimas da vida. Nos empurra para uma espiritualidade pasteurizada, uma saúde mental de cartilha, um autocuidado que não toca a alma.

Carl Jung já nos alertava que tudo aquilo que não é reconhecido e integrado na consciência retorna como sombra. Quando negamos o sofrimento, ele não desaparece — ele se move. Aparece no corpo, nos relacionamentos, na saúde emocional.

É como tentar manter uma represa intacta, mesmo quando a água já transborda por dentro.

Nos obrigamos a vestir a máscara da performance. É esperado que sejamos fortes, resilientes, positivos, colaborativos, produtivos… e calados.

Calados sobre o cansaço. Sobre as cobranças silenciosas. Sobre o medo de não dar conta. Sobre o vazio que cresce por dentro mesmo quando tudo parece certo por fora.

Como diria Winnicott, acabamos criando um falso self — uma persona que nos protege da exposição, mas que também nos distancia da nossa verdade. É a versão funcional de nós mesmos. Aquela que sabe o que dizer no call, mas que se perde quando o computador desliga.

A alma não quer render. Ela quer pertencer e no fundo, o que exaure não é só o excesso de trabalho — é a ausência de sentido. É estar constantemente representando um papel que não nos pertence mais.

Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, dizia que o ser humano é capaz de suportar quase tudo, desde que encontre sentido no que vive. Mas numa cultura que exige que sejamos felizes o tempo todo, até o sofrimento precisa ser justificado. E o vazio cresce onde o sentido deveria florescer. A cultura da exaustão nos faz confundir sobreviver com viver.

E é nesse momento que precisamos entender a pausa como resistência. Pausar é um ato de coragem.

Dizer “não” também é. Assumir que se está cansada, vulnerável ou sem respostas… mais ainda.

Mas é na pausa que o silêncio ganha voz. É nela que a alma, tantas vezes abafada por metas e filtros, começa a sussurrar de novo. E talvez esse sussurro diga:

“Você não precisa fingir que está tudo bem.
Eu só quero que você me escute.”

Deixo um um convite:

Se você está cansada de sorrir por obrigação...
Se sente que está sempre tentando dar conta de tudo — mas não sabe mais pra quem ou pra quê...
Se sua alma está pedindo por espaço, pausa, verdade...

Talvez seja hora de voltar a si.
Não com pressa, não com culpa — apenas com presença.
Porque voltar a si é, por si só, um gesto de inteireza.

Na Senda da Alma, é isso que buscamos.
Espaços de escuta. Caminhos de reconexão.
Vidas que não precisam mais caber em personagens.

A sua escuta para consigo já é um reencontro com o que importa.
Com aquilo que sobreviveu em silêncio, esperando por espaço.