Além do Cargo #2: Trabalho como Experiência, não identidade
Esperar que um dia tudo mude sozinho é ilusão.
Não existe trabalho perfeito entregue em bandeja de prata pelo universo.
Primeiro precisamos parar de terceirizar as coisas para fatores externos — como se o movimento e a ação não estivessem sob nossa responsabilidade.
E, sejamos francos: trabalho e perfeição na mesma frase é utopia.
É só mais uma forma de nos torturarmos, de nos condenarmos ao sofrimento eterno de nunca alcançar aquilo que não existe.
Se você não age, a vida vira repetição:
é a ansiedade com a música do Fantástico no domingo,
o loop infinito da semana em modo automático,
a sensação de viver segunda todo dia,
cargo que pesa mais do que move.
Não há mudança se não por você.
Albert Camus escreveu que “a luta para chegar ao cume já basta para encher o coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz”.
Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta.
Para sempre.
Um castigo sem fim.
Para Camus, Sísifo é a imagem do absurdo da vida: tarefas que se repetem, rotinas pesadas, lutas que parecem nunca terminar. Mas é aí que vem a provocação: “é preciso imaginar Sísifo feliz”.
A pedra continua sendo pedra.
O peso não desaparece.
O que muda é a forma de empurrar.
O sentido não vem de fora — nasce de como você escolhe viver a experiência todos os dias.
Novamente, não dá para terceirizar a experiência do trabalho — nem para a empresa, nem para o chefe, nem para a sorte.
Ela depende de ação intencional:
- Você escolhe estar presente em vez de só sobreviver;
- Você escolhe transformar a rotina em aprendizado;
- Você escolhe assumir responsabilidade pela marca que você deixa em cada entrega.
Trabalho é experiência consigo: reconhecer seus ritmos, sustentar presença no que faz.
É experiência com o outro: transformar relações de conveniência em vínculos de confiança.
É experiência com a obra: cuidar do que você entrega como quem deixa um traço no mundo.
Mas é preciso cuidado: o trabalho não pode ser a única cena da sua experiência.
Jung chamou de persona o rosto social que usamos no trabalho — máscara legítima, mas parcial.
Quando acreditamos que ela é tudo o que somos, nos perdemos.
O trabalho pode ser travessia, mas não é o único caminho.
Há outras experiências que também pedem espaço: a que ama, a que cria, a que silencia, a que apenas existe sem entregar nada a ninguém.
Reduzir a vida à experiência do trabalho é trocar uma prisão por outra.
O trabalho sempre terá seus pesos e repetições.
Mas podemos escolher como viver essa experiência: com presença, intenção e coragem de não reduzir a vida ao cargo.
Não é se conformar —
é transformar o esforço em travessia que abre novos sentidos.
É esse movimento —
de sair da função,
assumir a experiência
e não reduzir quem você é ao cargo —
que sustenta a travessia que estamos construindo juntos aqui.
A escolha é sua.
Como você vai viver a experiência do seu trabalho nesta semana, daqui por diante?
Com escuta e movimento,
Thaís Pontin
Psicóloga | Fundadora da Senda | Head de Desenvolvimento na VES
Minha atuação acontece no espaço onde pessoas, carreiras e organizações se encontram: apoiando executivos, líderes, equipes e jovens talentos em jornadas que despertam consciência e geram impacto real.
Na clínica ou nas empresas, sigo a mesma missão: enxergar o indivíduo em sua totalidade — antes, além e para além do trabalho — reconhecendo sua essência, sua singularidade e sua potência.