Vi hoje um post da página Filosofia Cultura Política que me atravessou.

Ele dizia que acreditar que o esgotamento se resolve com pausa, spa ou uma semana longe do celular é uma das marcas do nosso tempo. Que o burnout não é um colapso pessoal, mas o nome clínico de uma obediência silenciosa — a uma ordem social que nos quer esgotados, mas operantes.

E quando li isso, pensei no quanto a gente já naturalizou esse movimento. Quantas vezes repetimos para nós mesmos que “é só aguentar até o fim de semana”, “é só segurar firme até as férias”, como se pequenos respiros pudessem curar um modo de viver inteiro. Byung-Chul Han fala sobre isso: o sujeito contemporâneo acredita estar se realizando, mas, na verdade, se explora sem descanso. Somos nós, dizendo sim a tudo, carregando a engrenagem para dentro de nós, sem perceber que ela nunca se desliga.

O mais inquietante é como esse sofrimento passa a ser legitimado. Christophe Dejours mostra que o trabalho não só organiza nossa vida, mas também nosso sofrimento. E quando o sofrimento se torna coletivo, ele é normalizado. Quem nunca ouviu um “nossa, você está tão abatida” quase como um elogio? Como se o desgaste fosse prova de valor, medalha de comprometimento. Eu já vivi isso: em vez de perguntarem como eu estava, o reconhecimento veio pelo meu ar exausto. E, por um instante, quase me orgulhei daquilo.

E é aqui que entra outra camada: Herbert Marcuse já alertava que vivemos em uma sociedade que nos molda para aceitar como natural aquilo que deveria nos indignar. O cansaço virou performance. Estar esgotado se transformou em sinal de pertencimento, quase uma prova de que fazemos parte do jogo. Quem não se mostra exausto corre o risco de parecer indiferente, pouco engajado, insuficiente.

Mas há um ponto em que isso quebra. Em um encontro que facilitei com um grupo, trouxe essa reflexão: quando nosso interior nos chama de volta à essência, quando já não há mais como sustentar a imagem que tentamos manter, não adianta insistir em permanecer em lugares que já não nos cabem, em situações que não nos servem, em vínculos que nos fazem mal. Podemos até nos esforçar para preservar o status, a fachada, as aparências — mas esse esforço drena uma energia imensa. No fim, chega o ponto em que não há escolha: ou você se abre ao movimento de reconexão, ou será levado de qualquer maneira. Pode ir com dignidade, ou pode ser arrastando.

E talvez seja isso que o burnout nos mostra: não apenas um colapso, mas uma recusa a continuar reduzidos à engrenagem.


Com escuta e movimento,

Thaís Pontin
Psicóloga | Fundadora da Senda | Head de Desenvolvimento na VES

Minha atuação acontece no espaço onde pessoas, carreiras e organizações se encontram: apoiando executivos, líderes, equipes e jovens talentos em jornadas que despertam consciência e geram impacto real.

Na clínica ou nas empresas, sigo a mesma missão: enxergar o indivíduo em sua totalidade — antes, além e para além do trabalho — reconhecendo sua essência, sua singularidade e sua potência.